CAPITULO: 1
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estrada a sua frente
estava vazia. Ainda faltavam quilômetros para chegar até seu destino. Sempre
fora assim, nada nunca seria tão fácil. As pernas de Gustavo bamboleavam e
doíam de câimbras, suas costas queixavam-se com o excessivo peso que carregava
na grande mochila. Gustavo não fazia ideia há quantos dias estava na estrada.
Cinco?Ou será que era dez?
Gustavo Moacir era um garoto difícil de entender, de se ler;
era um garoto briguento, mas tinha seus motivos para cair em detenção; tratava
os melhores amigos como se fossem irmãos, porém às vezes se pegava perguntando
se estes fariam o mesmo por ele. Gustavo era pequeno, menor que o padrão médio,
puxara os cabelos cacheados e negros do pai, e os olhos esverdeados da mãe. Possuía
a pele morena, os olhos puxados caracterizados dos índios, a boca carnuda e
algumas pintas espalhadas pelo rosto marcado de pequenas cicatrizes. Gustavo
poderia ser considerado um garoto bonito, contudo, sua personalidade rude
deixava a aparência de lado.
O cenário ao seu redor não era tão aconchegante como
gostaria que fosse. A estrada vazia, sem carros passando, apenas com a
companhia dos pinheiros que rodeavam o chão asfaltado e o som da ventania. Nem
mesmo os pássaros se atreviam a produzir alguma sinfonia cantante e monótona,
como costumavam. Tal coisa o deixava perturbado. Gustavo sempre sonhara com o
lugar perfeito, em que ninguém pudesse atrapalha-lo, e houvesse total silêncio.
Mas, agora, sonhava com o dia em que poderia voltar a ver uma alma viva. No
momento, sonhava com o dia em que voltaria a ver seus pais. Gustavo nunca
pensara que um dia pudesse desejar tanto isso, afinal, antigamente, havia
constantes brigas em sua casa. E Gustavo estava presente em todas elas, não
como espectador.
A uns metros de distancia, na estrada, estava um zumbi se
rastejando, procurando sua razão de viver. Carne humana fresca. Este não
parecia que viveria por tanto tempo, pois perdera suas pernas. Gustavo
continuou a caminhada até chegar perto do morto-vivo, pegou uma pedra que
estava em seu caminho, e a jogou contra o desajeitado zumbi.
-Você não virá até aqui me comer, não é? – caçoara o menino,
sentindo-se solitário e deprimido por estar falando com um cadáver que não o
entenderia, mesmo que fizesse esforço. O pequeno e rude garoto pisara na cabeça
do morto-vivo, para acabar com o seu sofrimento. Ele tinha certeza de que
ninguém gostaria de terminar assim, daquele jeito lastimável. Comendo as
vísceras de quem uma vez fora seu parente, ou mesmo um amigo. Gustavo já passou
por isso, um de seus amigos se transformara nesta criatura esfomeada, e matou
inconscientemente o próprio irmão. Aquele pensamento o trouxe náuseas e
calafrios por toda a espinha. Tentara esquecer por vezes deste fato, no
entanto, esta lembrança dolorosa sempre voltava à tona. Perdera os dois únicos
amigos neste dia, depois de uma grande briga que tiveram. Gustavo sentira-se
mais sozinho que nunca depois daquilo.
O menino pequeno e rude apressara o passo a fim de chegar ao
seu destino antes mesmo da noite. Até ouvir um som de motor atrás de si. Um
carro. Só poderia ser um carro vindo em sua direção. Por tudo e todas as
situações que Gustavo passara, um carro não estava classificado como uma coisa
boa. Poderia ser uma gangue, ou simplesmente alguém armado, que continha algo
em comum com Moacir, sobreviver. O motorista veria Gustavo andando no meio da
rua, e o assaltaria, roubaria todos seus mantimentos – que a propósito, já
estavam escassos – e o largaria ali para morrer. O garoto não queria pegar
carona com esse tipo de gente, mas também, por outro lado, eles poderiam
aceitá-lo no grupo e Gustavo não teria mais que andar sozinho pela estrada.
Aparentava ser uma boa ideia, no entanto há sempre o lado negativo que
constantemente vencia.
Ora não queria
continuar a seguir seu próprio caminho só, ora queria fugir deste sujeito.
Gustavo Moacir não teve tempo para pensar, o carro estava se aproximando. Ele
se jogou num dos arbustos, na margem da estrada e ali ficou. Esperou o carro
passar, porém, o veiculo parou. Gustavo entrou em pânico. O sujeito o havia
visto. Porcaria, pensou Moacir.
-Ei, garoto! –chamou uma voz masculina e áspera – Eu te vi,
pode sair daí agora.
O homem desconhecido o vira, não tinha como escapar mais,
não havia para onde correr. Se virasse e corresse floresta adentro, os
mortos-vivos o seguiriam. Se não, seus mantimentos acabariam e ele morreria de
fome.
No rosto do menino pingavam seu suor de nervosismo, seu
corpo tremia de pavor. Definitivamente, o garoto não gostava de estranhos.
Apesar de desejar interagir-se com alguém que estivesse inteiramente vivo.
Sentia que enlouqueceria se continuasse sozinho, olhando e vivendo o mesmo
cenário há meses.
- E-eu não quero causar nenhum problema! – Gustavo gaguejou,
saindo de seu esconderijo arranjado, levantando as mãos em sinal de “paz”.
Moacir pôde ver o rosto do individuo. Aparentava ser um
homem no começo da fase adulta, porém, aqueles que continuaram a ter aquela
personalidade de fanfarrão e criança. Este possuía dezenas de tatuagens
espalhadas pelo corpo, chegava até mesmo o pescoço; seu cabelo era pintado de
um azul escuro, como se tivesse colocado a tinta por cima da cor original do
cabelo. Os olhos do rapaz fulminavam Gustavo, igualmente ao qual um consumidor
olha para um produto em liquidação. Ele usava uma roupa casual meio dark, com a camiseta de uma banda
aleatória e o braço entupido de pulseiras.
-Eu também. – Ele sorrira. O homem fizera uma transformação
notável nos dentes, afiando os caninos, tal como os vampiros. –Qual o seu nome?
-Não te interessa – respondeu de malgrado, semicerrando os
olhos com desconfiança.
O rapaz tatuado
revirou os olhos.
-Garoto, eu não sou da policia, não vou te fichar nem nada –
ele continuou sorrindo maliciosamente, balançando os braços como gestos de “eu
não ligo muito pra isso”. – Acho que você não percebeu, mas, estamos no meio de
um apocalipse zumbi. Sou Vincent Stálin. Mas pode me chamar de Vince.
Gustavo deu de ombros. Será que esse tal Vincent mentiria
sobre o próprio nome? Deveria Gustavo fazer o mesmo? Como o sujeito lhe
dissera, ninguém estava ali para lhe julgar ou fichar por matar esfomeados
mortos-vivos pelo bem da comunidade já há muito extinta.
-Gustavo Moacir.
O rapaz, denominado Vincent, aplaudira-o sarcasticamente.
Logo, Vincent abrira a porta de passageiro do carro, mostrando o interior de
seu veiculo. Era uma bagunça, de balinhas de goma às latas de refrigerantes no
chão. O banco estava manchado de algum liquido desconhecido, e Gustavo não
tinha certeza se teria visto uma barata zombeteira passeando pelo porta-luvas
ou fora apenas sua imaginação fluindo.
- Quer uma carona? –O sujeito levantou as sobrancelhas, de
modo acolhedor.
Uma parte de Gustavo dizia para ele não entrar naquele
carro, e continuar a andar tal como nunca tivesse conhecido esse individuo. No
entanto, a sua outra parte um pouco mais ingênua e poderosa, lhe aconselhava
pegar uma carona com Vincent até o seu destino, para assim suas câimbras e
dores na coluna esvanecer.
O garoto seguiu o conselho da parte menos poderosa, da qual
se orgulhava em ainda ter nesses momentos. Ele balançou a cabeça negativamente.
-Mas por quê? –o homem insistira implicitamente – Não
acredito que você perderá, talvez a sua única chance, de pegar uma carona... Eu
posso te levar para onde quiser! Juro!
Gustavo Moacir continuara a balançar a cabeça, um pouco
menos determinante.
-Vamos! – Vincent insistira, gesticulando com as mãos para o
garoto subir no carro e ir com ele enfrentar aventuras. – Eu não quero ficar
sozinho neste inferno, não há nada além de matar mortos-vivos e conseguir
suprimentos para sobreviver. Qual o problema em começarmos um grupo, hein?
Gustavo e Vince! Soa até legal!
Caramba
como esse cara é insistente, pensara Moacir, arregalando os olhos de
tamanha surpresa. O garoto estava agora mais assustado que tendente a ir a
algum lugar com este homem. Porém, ainda se sentia incerto sobre sua decisão.
Vincent estava prestes a continuar com a insistência, quando
os dois ouviram um som alto e nefasto. Gustavo e Vincent sabiam bem o que eram,
entretanto esperaram a multidão chegar para comprovar suas suposições. Era uma
horda de zumbis. Todos caminhando em direção aos dois rapazes. Provavelmente o
ruído do motor do automóvel tenha chamado à atenção destas criaturas infernais.
-Agora não há mais tempo pra pensar! –gritara por sobre o
tumulto dos mortos-vivos. Porém, Gustavo fingira não ouvir. Ele estava
apavorado demais para se mover, ele ficara imóvel, hipnotizado, com o tamanho
da horda de zumbis.
Vincent percebendo que Gustavo não sairia dali, olhou
através do retrovisor e observou se as criaturas nefastas estavam perto demais.
Ele tinha tempo para empurrar o garoto para dentro do carro, mas se este não
cooperasse, deveria deixa-lo lá. Stálin saiu do carro, correu até o menino
assustado e tentou puxa-lo para dentro do veiculo.
-Vamos, Gustavo! Saí dessa, irmão! –o homem dissera-lhe
palavras reconfortadoras, mas estas não foram o bastante para tirar Moacir de
seu transe. –Cara, se aquelas coisas chegarem até a gente; não teremos chance!
Vamos!
O rapaz dera um tapa demasiado forte no rosto paralisado de
medo de Moacir. O garoto acordou da forma mais inconveniente. Gustavo soltou
tudo que estava sentindo por dentro, a partir de um grito tão alto que os
pássaros escondidos nas árvores voaram para longe deles.
-Caramba! – Vincent riu na pior hora possível. Assim que o
garoto terminou de vomitar seu lanche e praticamente a única coisa que tivera
para comer esta tarde, eles entraram apressados no carro. Stálin tentara ligar
o carro, mas este morria sempre que tentava. Outro problema para a dupla. – Qual é, belezinha, não vai me deixar na
mão, né? Não agora...
Gustavo Moacir entrara em pânico novamente, inspirando e
expirando forte, sentia que o sangue não estava circulando direito e seu ar
estava acabando mais rápido do que deveria. Ele segurou o pulso do homem, e o
encarara com um mix de emoção. Frustração e medo.
-Faça essa coisa – parara para recuperar o fôlego – ligar,
agora!
O homem passara a mão livre no pulso marcado com os dedos
firmes do garoto. Ele novamente olhara no retrovisor, a horda estava chegando
mais perto, agora podia ver nitidamente os rostos dos desalmados. Vincent que
antes tivera tirado a chave, a colocara de novo com pressa, e a desgraçada
caíra de suas mãos.
-Merda, merda, merda... –murmurou Stálin repetidas vezes –
Não comigo, não aqui, não agora.
Moacir obsevera a situação. O carro morrera, a chave tão
importante para este momento caíra, e a multidão de mortos-vivos esfomeados
estava se aproximando. Pois é, eles não tinham chance alguma. Este seria seu
ultimo suspiro, seu ultimo dia de vida. E estava preso com esse desconhecido, e
prestes a ser devorado por criaturas desumanas. Gustavo não sabia até quando
aguentaria toda aquela adrenalina, sentia que iria desmaiar. Seu coração
palpitava e as mãos tremiam e suavam frio. O garoto começara a cantarolar uma
reza, desejando que desta vez a entidade superior o ouvisse e o ajudasse.
-Fica frio, está tudo sobre controle, cara – garantiu-lhe
Vincent, que segurava a preciosa chave nas mãos. Ele colocara com cuidado a
chave para dar ignição no carro. O carro
ligou, e a sobrecarga no pobre coração do garoto diminuiu, ele sentiu-se
aliviado. Contudo, uma parte da horda, dos mais sortudos, chegara ao veiculo.
Os esfomeados balançavam a traseira do automóvel, querendo derruba-lo, e alguns
se encaminhavam em direção as janelas da frente. –Saiam daqui, coisas feias! –
Stálin gritara, empurrando os braços pútridos dos mortos intrometidos.
Moacir tomara um susto assim que o primeiro par de braços
apareceu na sua janela, empurrou-os para fora e fechou a janela rapidamente.
Ouvira algo se rachar. Era o vidro traseiro, do porta-malas que estava
quebrando. Os dois rapazes teriam que se apressar se quisessem sair de lá
vivos.
-QUE SACO, VINCENT, LIGA ESSA DROGA DE CARRO AGORA! –
Gustavo estava principalmente frustrado, pois queria muito não estar ali, e
Vincent Stálin o forçou a isso. Finalmente o rapaz tatuado ouvira Gustavo,
assim como o carro sentira a sua raiva.
O automóvel começou a andar lentamente por causa do
excessivo peso dos mortos por sobre o veiculo, alguns esfomeados caíram no
asfalto, rolando e consequentemente derrubando outros de sua espécie. Uns, mais
persistentes, prenderam-se no capô.
- Eu sei que você passou por muita coisa, essencialmente
hoje – continuara Vincent Stálin, ora olhando a estrada, ora encarando
espantado para Moacir -, mas eu preciso que você tire estes desgraçados encima
do meu capô, entendeu?
-Como é possível eu fazer isso sem ser mordido?! –
perguntara apavorado, ele não queria ser um deles, nem mesmo queria encostar
neles.
Vincent olhou ao redor, procurando um objeto grande o
bastante para manter o garoto assustado afastado destas criaturas. Na parte
detrás do carro, onde se encontravam os bancos traseiros – que estavam
infestados de mochilas de antigos parceiros, agora transformados em criaturas
sem almas; e entupida de bens de consumo já há muito usadas–, Vincent avistara
um bastão de beisebol caído e solitário. Ele o pegara e entregara a Gustavo
Moacir.
-Com isso. Boa sorte – ele esboçara um sorriso
intencionalmente amigável, para assim transmitir uma ideia de que estaria tudo
bem para o pobre garoto.
E assim fez, Gustavo tomou o bastão da mão de Vincent Stálin
e abriu a janela de sua porta. Sentia o vento soprar seus cabelos ondulados,
afastando as mechas suadas da testa, e encher-lhe os pulmões de ar.
Infelizmente, para o seu mal, as criaturas esfomeadas já havia percebido a
presença nítida de carne humana, estes avançaram para cima de Gustavo. E o
garoto rebateu um dos mortos vivos para longe, caindo do veiculo em movimento e
espatifando-se ao chão. Ainda faltava dois, que estavam no lado do motorista,
atrapalhando a sua tão importante visão. Depois do primeiro zumbi jogado para
fora do carro, Moacir sentira um alívio e um começo de um vício por matar
mortos vivos. Ele se projetara para fora da janela, sentando
desconfortavelmente na porta, e lentamente se aproximava dos intrusos.
Cutucou-os de longe, mas nada fora efetivo. Eles apenas esquivaram. Gustavo sem
ideias fez o possível, até tentar chamar os mortos vivos com assobios e gestos.
E novamente nada fora efetivo.
-Tenta chegar mais perto – avisara-lhe Vincent. Não sabendo
do risco da situação.
Gustavo Moacir bufara de raiva. Tenta vir no meu lugar, sacana, quero ver fazer melhor, ele
dirigira a frase num só olhar, e Vincent entendeu o recado.
Apesar de estar quase sem forças para continuar a segurar-se
no teto do carro, ele tentara chegar um pouco mais perto do capô. A sua sorte
foi que os intrusos chegaram mais para perto, rastejando-se no seu ritmo lento.
Gustavo esperou as criaturas chegarem mais perto, até que avançou para cima
delas. O zumbi da frente se desequilibrou com o golpe do garoto e levou o outro
de sua espécie junto, para a morte. Assim que as criaturas caíram, o veiculo
passou por cima delas, fazendo Gustavo pular e por meio segundo perder o
equilibro; o garoto deixou o bastão cair, logo que segurara com as duas mãos na
porta do carro.
-Obrigada por isso – dissera Stálin sarcasticamente. Porém
este não parecia tão preocupado com o bastão.
- Pelo menos estou vivo, não é? – respondera Gustavo com
preguiça para começar uma briga sem sentido. O garoto coçara a cabeça com
nervosismo, percebera que as mãos estavam tremendo imperceptivelmente.
Vincent o observara dos pés a cabeça.
-É... Ao que parece, não foi mordido, então não vou ter que
matar você – o homem sorrira, mesmo sendo verdade, Moacir se assustara com o
fato. O lembrou da vez em que fora obrigado a matar os dois melhores amigos,
sabendo que o que eles queriam era Gustavo sendo forte naquela guerra contra a
morte e sobreviver o máximo possível. Olhar sempre para frente. –Então, para onde
quer ir?
todo o histórico neste
final da tarde, o fez esquecer-se de onde queria ir.
-Eu não sei.
Vincent parecera confuso, mas percebera que o garoto havia
passado por muita coisa, sendo assim, continuara dirigindo.
-Tudo bem. Vamos descobrir depois.
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