CAPITULO 2:
Há muito escurecera, e Gustavo não pronunciara nenhuma
palavra sequer, todavia, nem Vincent quis se intrometer na sua taciturnidade. O
menino ficara observando a rua, as placas virem e passarem repentinamente, e o
céu pintar-se de negro e as estrelas brilharem fortes. Transmitindo esperança a
Gustavo, fazendo-o se esquecer dos acontecimentos traumáticos nesta tarde. Ele
suspirara, bem que gostaria que fosse verdade, esta tarde foi intensa demais
para ser simplesmente esquecida.
Vincent olhara de relance para ele. Estava preocupado. O
garoto não estava reclamando e não fazia nada além de olhar as estrelas
piscarem. Stálin o chamara, despertando-o da solidão eterna.
-Você está bem?
Gustavo apenas o olhara com os olhos grandes e esverdeados.
Sem resposta.
-Sério, diz alguma coisa. Você está calado desde que estamos
na estrada. E isso seria o que? Quatro horas? – Vincent olhara o céu,
procurando algo. –Está com fome?
Gustavo não respondera, porém seu estomago sim. Roncara tão
alto que até mesmo Moacir se apavorara.
-Acho que isso é um sim – Stálin demonstrara um sorriso
genuíno e afiado ao garoto, contudo este não o correspondera com alguma reação.
Apenas a cara de taxo e cansada de sempre. – Eu conheço essa área, sei que tem
um posto por aqui.
O garoto assentira, não podia deixar o homem no ar, embora o
tenha feito fazer coisas perigosas, de certa forma, ele o salvara. E Gustavo
Moacir estava grato por isso. O menino relaxou em seu assento, e começara a
fechar os olhos lentamente. Pegou no sono.
Em seu sonho, tudo estava completamente normal, nada de
estranho tinha acontecido ainda. Estava tranquilo como costumava ser. Gustavo
se encontrava num supermecardo, idêntica ao que trabalhava antes de resultar naquilo. Ora limpava o que sujavam, ora guardava
o dinheiro na caixa eletrônica. Certamente era um tormento trabalhar como
caixa, ficar em pé o dia todo, olhando para rostos feios até o final do turno.
Contudo, estava melhor do que o mundo fora do sonho. Seu turno acabara
finalmente, e alguém de rosto familiar vinha em sua direção. Era Boris. Seu
chefe. Ele estava segurando dois outros garotos pela gola da blusa,
arrastando-os. Gustavo bem sabia quem era, e esperava que um dia aquilo fosse
acontecer.
-Encontrei estes dois pivetes no corredor de doces. Estavam
roubando mentos e explodindo garrafas de Coca. Conhece esses demônios? – O
senhor seu patrão encarou cada um deles, enquanto estavam suspendidos pelas
suas firmes mãos, e voltou a observar seu jovem funcionário.
Gustavo não teve tempo de responder. Alias, ele iria mentir
sobre conhecer os amigos, eles estavam lhe causando prejuízos e não queria ser
demitido tão cedo.
-Então é aqui que você trabalha, Gu? – sacaneou Ronny
Dominique, o de cabelos claros, usando um casaco de um azul chamativo. – Parece
ser chato.
-Concordo – dissera maria-vai-com-as-outras, Martim Dominique, o irmão mais novo de Ronny.
Eles não se pareciam nem fisicamente nem intelectualmente. O cabelo de Martim
era visivelmente ruivo, e isto era o que se destacava em sua aparência. Fora
seu visual, sua personalidade era evidentemente angelical, apenas as escolhas
de Ronny que deixava o irmão mais novo confuso. Podia se ver claramente as
gotas de suor caindo de seu rosto, molhando o chão recentemente limpo por
Gustavo.
Moacir lançara um olhar fulminante para os dois. Este era o
emprego mais longo que já teve e eles estavam estragando isso.
- Você conhece esses garotos, Gustavo Moacir? – perguntara o
patrão Boris novamente, irritado.
-Não senhor.
-E porque eles te chamaram de Gu? – Boris estava desconfiado,
apesar de ser muito influenciado.
-Não sei, senhor – francamente, Gustavo já mandara os dois
amigos pararem de o chamarem de Gu, era simplesmente humilhante à sua imagem de
valentão.
Boris chegou mais perto do rosto do menino. Até que o garoto
podia sentir o bafo de peixe do patrão, queria vomitar, mas sabia que deveria
encara-lo até acreditar em Gustavo. Sentia sua alma queimando dentro de si só
por estar sendo encarado pelo chefe. Engoliu seco. Encarou por mais um tempo
aqueles olhos cinzentos e sem vida.
- Gustavo, eu quero que você limpe todo o corredor agora
mesmo – avisara-o baixinho. Depois respirara fundo para ditar as palavras um
tanto altas: - OU ESTÁ DEMETIDO!
Gustavo Moacir assentiu, sacudindo a cabeça e fazendo uma
reverência antes de partir correndo para o corredor de doces. Limpar toda
aquela bagunça. Olhou por detrás do ombro e viu os dois amigos sendo levados
para fora da loja, provavelmente foram expulsos, ou terão que pagar pelo
prejuízo. Mais tarde, Gustavo cuidaria daqueles dois.
Quando terminou de limpar o corredor de doces, a maior
bagunça que já vira, pior que a que guardava como troféu no seu quarto, já era
tarde e o local estava fechando. Gustavo se despediu de todos, e saiu da loja.
Encontrou os dois amigos do lado de fora, esperando, encostados na lata velha
que era o carro deles.
-Qual o seu problema cara? – perguntara Ronny, na defensiva
– poderia ter nos ajudado, não?
-Você ia me fazer perder o emprego, e agora eu tenho certeza
de que parte daquilo vai ser descontado do meu salário. – rebatera Moacir,
tirando o cadeado que prendia a bicicleta.
-Bom, você não tem certeza sobre isso, certo? – Martim
tentara melhorar o clima. Gustavo o encarara com escárnio e o garoto mais novo
se enrubescera e encolhera de vergonha. –Olha me desculpa de verdade, Gu. Eu
não estava nem a fim de fazer isso, fora Ronny que me obrigara! Ele sabia onde
você trabalhava desde o começo e queria fazer uma surpresa pra você e me chamou
para ajuda-lo; eu só não sabia que surpresa era, até hoje. Desculpe-me, mesmo
Gu.
-Obrigado Martim! – Ronny gritara de raiva. – Seu estúpido
dedo-duro.
Moacir estava tão enlouquecido de rancor que já não sabia
controlar as próprias emoções. Começara a rir, e Ronny, pensando que fizera uma
coisa boa, seguiu o amigo, Martim Maria-vai-com-as-outras não sabendo da
situação e não querendo estar sozinho, pensou ser hora de começar a rir junto.
-Do que estamos rindo? – Martim perguntara confuso.
-Vocês realmente me tiram do sério, caras. Estou rindo de
sua estupidez, Ronny, estou cansado de ser a vitima de suas sacanagens, cara –
dissera em tom sério. O momento de rir acabou, e sentia a ira subir queimando
toda a sua garganta.
-Ah, agora eu sou o estúpido?
-Sempre foi – rebatera. Levantando as sobrancelhas, estava
surpreso por ele nunca ter percebido.
Os dois amigos desataram a xingar um aos outros, dos nomes
mais de baixo calão possível. Estes não perceberam que por sob o tumulto, havia
um barulho, um ruído estranho e ignoto. Martim tentara procurar a origem deste
estranho barulho, observara todos os cantos da loja e as ruas. Estava tudo
muito quieto, nada movimentando. Então, de onde seria esse som?
Martim chamara a atenção dos amigos briguentos, sem sucesso.
Tentara mais uma vez. Contudo, estes estavam ocupados demais discutindo sua
relação esquisita. No final da rua, vinha alguém, provavelmente estava irritado
com o barulho que os dois rapazes estavam fazendo. O jovem garoto encolhera-se
de vergonha e caminhou até o desconhecido.
-Desculpe-me, senhor, prometo-lhe que não faremos nenhuma
confusão. A propósito, já estávamos de saída – garantira o menino, percebendo
que atrás de si, os dois amigos já haviam parado de discutir, e pré-escutavam
Martim. O garoto mais novo observara que nada adiantara suas desculpas, o
desconhecido continuava a andar na sua direção, ao mesmo passo. Estava bastante
escuro, e mesmo com a certa proximidade do estranho, Martim não conseguia
definir quem era. –Juro senhor, estávamos de saída.
Ronny dirigira o olhar para o contorno da estrada, e notou o
seu irmão caminhando em direção à um completo estranho.
-Martim! – sussurrara Ronny, batendo o pé, mostrando o quão
nervoso estava. Apesar de estar longe, Ronny pôde sentir que o clima estava
tenso, e tudo aquilo parecia suspeito. Era tarde da noite, não deveria ter
ninguém há essa hora vagabundeando e intervir na discussão dos outros, além do
mais, eles poderiam ter reclamado de onde se encontravam. Nos apartamentos que
rodeavam o supermercado. Embora da distância, Ronny viu no olhar do estranho
homem, certo tipo de fome, uma ânsia, um desejo incomum. –MARTIM!
O Dominique mais novo levara um baita susto, dera um
pulinho, e pôs as mãos por sobre o peitoral. Quase tivera um ataque do coração.
-Ronny, quer me matar de susto?! – perguntara retoricamente,
já sabendo a resposta, virando de costa, encarando o irmão afastado. –Nossa mãe
já o avisara, o que seus ataques de raiva podem causar em mim. Eu que vou
enfartar e não você!
-Saía já daí! Quantas vezes devo dizer para não se aproximar
de gente que você acabou de encontrar NO MEIO DA NOITE? – Ronny fizera gestos
para o garoto apressar o passo. Porém o desconhecido estava bem perto do jovem
irmão.
Martim iria respondê-lo, no entanto, o estranho caminhante,
que antes vinha na direção dos três amigos, agarrara repentinamente o garoto
ruivo. Ele gritara e o mandara soltá-lo. Ronny sabia que Martim não tinha
nenhuma intenção de machucar uma mosca, quanto mais um ser humano. O irmão mais
velho fora o primeiro a correr, Gustavo, antes perdido nos próprios
pensamentos, acompanhara o passo do amigo. Percebera a situação, e aumentara o
passo. Segurou os braços firmes do estranho, que apertavam os braços do garoto
ruivo, imobilizando os membros superiores. Gustavo olhara de relance para o
rosto do agressor, e achou ter visto uma parte do rosto do homem sendo devorada
por larvas. Ele soltara os braços do estranho. Tinha nojo. Observara que as
mãos deste eram pútridas, parte dela era verde e cinza e amarelada.
-O que está fazendo cara? Não o deixe escapar! – ordenou
Ronny, contudo, seguira o olhar de Gustavo e avistara também. A pele morta do
agressor. Além disso, percebera que quando soltara os braços do homem, suas
mãos estavam grudentas.
-O que foi?! – perguntara Martim, confuso, perdido no
assunto, tentando desvencilhar-se do rapaz. – Tire ele daqui! Por favor! Por
favor!
Ronny balançara a cabeça, desviando a atenção dos devaneios.
Isto está errado, cara, muito errado,
pensara consigo mesmo. Continuou a puxar os braços mortos, porém ainda funcionais, do homem. Martim estava
exausto de empurrar o corpo do agressor para longe de si que por um breve, e
importante, segundo, deixara soltar os braços. Fora o tempo que o rapaz meio
morto tivera para abocanhar parte de cima do ombro de Martim. Este gritara até
acabarem todas as suas forças. Gustavo, que antes estivera segurando e mantendo
o desconhecido afastado do jovem garoto, puxou o homem com toda a sua força e o
jogara no chão. Por fim, pisara na sua cabeça fortemente, e ela explodira por
baixo de sua sola com toda a pressão exercida sobre ela.
-Gu, você matou o cara! –vociferou Ronny. Confuso e
assustado.
-Não temos tempo pra isso, olha o que ele fez com o seu
irmão! – apontara para o ombro ensanguentado do menino. Este choramingava, e
tremia. – Vamos entrar no supermercado, lá dentro tem uma área de farmácia.
Podemos pegar um remédio pra ele.
Ronny ponderou a ideia. Notou que o irmão puxava sua
camiseta, já andando para o supermercado. Não teve outra escolha além de
acompanha-lo.
Assim que entraram no supermercado, foram correndo, no ritmo
de Martim para não se separarem, até a área da farmácia. No momento em que
chegaram até lá, vislumbraram a loja fechada, claro. Mas por sorte, a chave que
Gustavo mantinha em mãos, era a chave mestra. Abriu o portão e contemplou a
quantidade enorme de remédios nas estantes espalhadas.
-Pegaremos o que for preciso – avisara Gustavo. Voltaram
para se reencontrar assim que tinham todos os equipamentos precisos para a
situação do pobre garoto ensanguentado. Puseram no chão todos os medicamentos
que acharam para tratar da ferida, as bandagens, e até uma bolinha para Martim
por todo o sofrimento nela.
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